O Auditório do CCSH, no prédio 74C da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), recebeu nesta terça-feira (8) o evento “Direito à memória e à verdade: a importância das Comissões da Verdade para a democracia”. Participaram da atividade o pró-reitor adjunto de Planejamento da UFSM, Carlo Alessandro Castellanelli, representando a gestão da UFSM; os professores Diorge Konrad, Gláucia Vieira Ramos Konrad e Everton Picolotto; os Técnico-Administrativos em Educação Darci Roberto Fidler (Beto Fidler) e Alcir Luciany Lopes Martins; a presidenta da OAB Santa Maria Juliane Müller Korb e o advogado Márcio Bernardes; Douglas Jardim, do Diretório Central dos Estudantes (DCE); e Renata Ferraz Guerra de Andrade, ex-integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), além de estudantes e representantes de entidades da universidade.
Promovido pelo Núcleo Interdisciplinar de Interação Jurídica Comunitária/Residência (NIIJUC), com apoio de entidades como a Assufsm, Sedufsm, DCE, OAB e UFSM, o encontro foi realizado em alusão à Campanha da Legalidade e teve como objetivo discutir o direito à memória, a preservação da história e o papel das Comissões da Verdade na construção e defesa da democracia.
Na abertura, os participantes destacaram que falar sobre a ditadura militar brasileira não significa permanecer preso ao passado, mas compreender acontecimentos que ainda produzem consequências no presente. A memória foi apresentada como instrumento de responsabilidade social, defesa dos direitos humanos e prevenção para que graves violações não voltem a ocorrer.
Representando a Assufsm, esteve o Técnico-Administrativo em Educação Darci Roberto Fidler (Beto Fidler), que participou da Comissão da Verdade da UFSM e também integrou o grupo de trabalho responsável pelo levantamento sobre os trabalhos realizados e as atividades que ainda precisam ser retomadas. Ao recordar sua trajetória de militância durante a ditadura, Fidler ressaltou que a criação da Comissão da Verdade, em 2015, esteve cercada de debates e resistências. Segundo ele, desde o início, o objetivo da iniciativa nunca foi promover perseguições, mas reconstruir a história da universidade e tornar públicos fatos que permaneceram sem esclarecimento.
“Nós não queremos fazer uma caça às bruxas, nós queremos contar a história do que aconteceu”, destacou o TAE.
Para Fidler, a retomada da Comissão representa a possibilidade de avançar na investigação e no registro de acontecimentos que ainda fazem parte de uma história não totalmente conhecida. Ele destacou que preservar essa memória é fundamental para as novas gerações e para que os episódios de autoritarismo não sejam esquecidos ou distorcidos. Ao lembrar sua própria experiência na resistência à ditadura, Fidler reforçou que a democracia é resultado de uma trajetória de lutas e que a universidade precisa preservar a memória daqueles que participaram desse processo.
O professor Diorge Konrad reforçou a necessidade de avançar na chamada justiça de transição e de retomar os trabalhos da Comissão da Verdade da UFSM. Para ele, ainda existem documentos e informações que precisam ser localizados e analisados, inclusive em arquivos relacionados aos órgãos de repressão. Konrad também destacou que a democratização precisa alcançar as próprias estruturas internas das instituições e defendeu, neste sentido, que a Universidade reconheça marcas deixadas pelo período autoritário e avance na construção de práticas mais democráticas.
O professor Everton Picolotto, representando a Sedufsm, chamou atenção para a própria formação histórica da UFSM. Criada em 1960, a universidade atravessou o golpe de 1964 e a reforma universitária de 1968, período que marcou profundamente sua estrutura institucional. Picoloto ressaltou que ainda existem questões a serem esclarecidas sobre perseguições e sobre a atuação do regime dentro da instituição e reafirmou o compromisso do sindicato com a pauta da memória e da verdade.
Pelo DCE, Douglas Jardim destacou o papel histórico do movimento estudantil na resistência à ditadura e a importância de investigar a repressão sofrida por estudantes dentro da própria UFSM. Para ele, conhecer esse passado é fundamental para que as novas gerações compreendam a fragilidade da democracia e a necessidade de defendê-la permanentemente.
Representando a gestão da UFSM, o pró-reitor adjunto da Pró-Reitoria de Planejamento Carlo Alessandro Castanelli informou que a universidade já está trabalhando na recriação formal da Comissão da Verdade. Segundo Castanelli, uma minuta de portaria para a retomada dos trabalhos já foi elaborada e encaminhada ao gabinete da reitoria e o documento deverá passar por ajustes finais antes de sua formalização.
Por fim, o representante da Administração também destacou que a discussão sobre memória e transparência dialoga com a construção do novo Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da UFSM, que orientará a universidade a partir de 2027. A intenção é incorporar essas reflexões ao planejamento institucional.
As manifestações da primeira parte do evento reforçaram, assim, a importância de retomar o trabalho iniciado pela Comissão da Verdade em 2015. A expectativa é de que a nova comissão possa dar continuidade ao levantamento documental, ouvir testemunhos e esclarecer episódios ainda não completamente conhecidos sobre a história da UFSM durante o período autoritário.

Renata Ferraz: “A irracionalidade está falando mais alto”
A segunda parte do encontro contou com a participação de Renata Ferraz Guerra de Andrade, ex-integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que viveu a clandestinidade e passou anos no exílio.
Em sua fala, Renata compartilhou experiências de sua trajetória política e refletiu sobre os desafios atuais para a preservação da democracia. Segundo ela, uma das principais preocupações contemporâneas é o avanço da irracionalidade e do negacionismo, inclusive em relação à ciência e a fatos históricos.
Para Renata, o conhecimento sobre o passado continua sendo necessário para enfrentar discursos que relativizam a ditadura e as violações cometidas pelo Estado. A ex-militante também defendeu o diálogo com as novas gerações, destacando que não é preciso voltar a viver um período de repressão para compreender a importância da democracia. Para ela, o caminho está na conversa e na recuperação da memória histórica.
Durante o debate, Renata também relatou episódios de sua trajetória na luta contra a ditadura, incluindo a saída do Brasil pela fronteira do Rio Grande do Sul. Ela contou que deixou São Paulo, chegou a Porto Alegre e posteriormente atravessou a fronteira por Jaguarão em direção ao Uruguai. Depois, passou pelo Chile e pela Argentina, retornando ao bra apenas após a promulgação da Lei da Anistia.
Apresentação do relatório acerca do estado da Arte da Comissão da Verdade da UFSM
A terceira parte do evento, dedicada à apresentação do estado da arte da Comissão da Verdade da UFSM, foi conduzida pelo advogado Márcio Bernardes, pelo professor Diorge, pela professora do curso de Arquivologia Glaucia Vieira Ramos e pelo TAE Alcir Martins, que também integrou a Comissão da Verdade. Na apresentação, foi destacada a existência de documentos relacionados à UFSM e a Santa Maria preservados no Arquivo Nacional, além de materiais espalhados por diferentes setores da universidade, como arquivos de servidores, departamentos e pró-reitorias. Esse acervo pode contribuir para a compreensão da atuação dos órgãos de informação, das perseguições e dos mecanismos de controle durante a ditadura. Também foi ressaltada a necessidade de preservação dos documentos do período, especialmente após as enchentes que atingiram parte do acervo da universidade, deixando materiais atingidos pela água congelados e dependentes de procedimentos técnicos para recuperação e identificação.
A Comissão da Verdade enfrentou dificuldades de recursos, infraestrutura e pessoal e teve seus trabalhos interrompidos em 2019, após a extinção de diversas comissões relacionadas à memória e à verdade. A mobilização posterior da OAB, do movimento estudantil e de outros setores resultou na criação de um Grupo de Trabalho pela reitoria, que realizou um levantamento das atividades desenvolvidas e apresentou propostas para a continuidade do processo. O relatório foi apresentado como um ponto de retomada, e não como encerramento, defendendo-se a recriação da Comissão da Verdade por meio de nova portaria e a valorização da experiência dos integrantes que participaram da primeira comissão.
A retomada foi apresentada como um compromisso institucional com a preservação da memória e com o direito da sociedade de conhecer sua história. Entre as propostas está a criação de um espaço de memória na universidade, reunindo documentos, depoimentos e o relatório final, além do fortalecimento da participação de professores, pesquisadores, entidades da sociedade civil e, especialmente, dos estudantes. Nesse sentido, a reconstrução da Comissão da Verdade representa a possibilidade de concluir um trabalho interrompido, aprofundar a investigação sobre a história da UFSM durante a ditadura civil-militar e estabelecer uma política permanente de memória na universidade.
















