Neste domingo, 20, é celebrado o Dia do(a) Gaúcho(a), data que recorda o início da maior e mais longa guerra civil da história do país: a Guerra dos Farrapos. O conflito que teve início em 20 de setembro de 1835, foi movido pelos ideais separatistas das elites locais, que se sentiam prejudicadas com a política econômica regencial, tendo o conflito se prolongado por 10 anos.
O Acordo de Paz de Poncho Verde, firmado em 1845, pôs fim à Revolução Farroupilha e garantiu benefícios às lideranças rebeldes, que foram incorporadas ao Exército Imperial. Para os homens negros escravizados que participaram da guerra sob a promessa de liberdade, entretanto, o desfecho foi marcado pela violência e pela traição. Em novembro de 1844, durante o episódio que ficou conhecido como Massacre de Porongos, dezenas de Lanceiros Negros foram mortos em um ataque das tropas imperiais.
Assim, o evento que se sustenta em uma narrativa marcada pela exaltação heroica da Revolução Farroupilha, carrega em sua história o apagamento de soldados negros, como os Lanceiros Negros, essenciais para o conflito. Essa exclusão histórica evidencia a desvalorização da cultura e da identidade negra, consequência de um processo de embranquecimento e do racismo estrutural que ainda permeia a sociedade gaúcha.
A Traição dos Porongos
Após a declaração de independência da então província de São Pedro do Rio Grande do Sul, em 1836, os líderes farroupilhas enfrentaram dificuldades para manter suas tropas e ampliar a capacidade militar do movimento. Nesse contexto, milhares de homens negros escravizados foram incorporados ao conflito sob a promessa de que receberiam a liberdade ao término da guerra. Embora desempenhassem diferentes funções, ficaram conhecidos na história como os Lanceiros Negros.
Ao longo da Revolução Farroupilha, os soldados negros tiveram papel fundamental nos combates. Estima-se que, nos anos finais da guerra, eles representassem cerca de um terço das forças farroupilhas. Para responder à crescente participação dos negros, os imperiais decretaram em 1838 a “Lei da Chibata”. Ela determinava que todo escravo que fosse preso fazendo parte das forças rebeldes receberia de 200 a mil chibatadas.
Mesmo diante da violência e da ameaça constante, muitos continuaram integrando as tropas farroupilhas na expectativa de conquistar a liberdade prometida. No entanto, à medida que a revolução se enfraquecia, com derrotas militares sucessivas e o afastamento de importantes lideranças, a presença dos combatentes negros passou a representar um impasse os republicanos. Afinal, o reconhecimento da liberdade desses soldados confrontava diretamente os interesses escravistas de grande parte da elite que conduzia o movimento.
Por conta disso, na madrugada de 14 de novembro de 1844, um esquadrão de lanceiros negros acampado no Cerro dos Porongos atacado pelas tropas imperais. Mais de cem Lanceiros Negros foram mortos e aqueles que sobreviveram e não conseguiram escapar para quilombos ou para o Uruguai foram capturados e enviados à Corte. Assim, a liberdade prometida durante a Revolução Farroupilha jamais chegou para muitos deles, que permaneceram escravizados até a abolição da escravidão em 1888.
O Ataque foi resultado de um acordo entre o Duque de Caxias, enviado pelo Império como encarregado de pôr fim à guerra, e do general farroupilha David Canabarro. Na tentativa de negociar uma anistia com o império, o general escreveu ao Duque de Caxias, tramando a data e o local para um ataque ao acampamento dos negros, que estariam desarmados.
Mesmo sendo um dos episódios mais marcantes e controversos da Revolução Farroupilha, o Massacre de Porongos ainda permanece à margem da história do 20 de setembro. Enquanto a memória farroupilha costuma destacar feitos militares, lideranças e símbolos tradicionalistas, a trajetória dos Lanceiros Negros e as circunstâncias de sua morte raramente recebem o mesmo espaço nas comemorações. Essa invisibilização contribui para a construção de uma versão parcial da história, que muitas vezes silencia as experiências da população negra e seu papel decisivo no conflito.
Fonte: Politize e BBC
