O Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, foi criado em 2004 quando lideranças do movimento trans e travestis organizaram um ato nacional no Congresso Nacional, em Brasília, para o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”. Desde então, a data é um marco de luta contra a transfobia, valorização da cidadania e respeito à identidade de gênero no Brasil.
Nesta data, a Assufsm reafirma seu compromisso com os direitos humanos e com o enfrentamento às violências de gênero ao ressaltar as ações desenvolvidas pela Casa Verônica, serviço institucional de acolhimento psicossocial e jurídico voltado à comunidade acadêmica.
Criada a partir da Política de Gênero da UFSM em 2021, a Casa Verônica nasce como um espaço de escuta, orientação e proteção, especialmente diante de situações de violência de gênero, assédio e discriminação. O nome do serviço foi escolhido por consulta pública e homenageia Verônica, mulher trans, ativista e referência comunitária em Santa Maria. “A Casa Verônica é um serviço da universidade, criado para acolher e orientar pessoas que vivenciam situações de violência de gênero”, explica a TAE Bruna Loreiro Denkin, que integra o setor de administração na Casa Verônica.
Memória, acolhimento e política pública
O nome da Casa Verônica foi escolhido por meio de consulta pública à comunidade universitária, que contou com a participação de mais de 1.500 votantes. A denominação Casa Verônica UFSM recebeu 39% dos votos e homenageia Verônica de Oliveira, mulher trans, ativista do movimento LGBTQIAP+ em Santa Maria (RS) e referência no acolhimento comunitário.
De forma independente e sem vínculo institucional, Verônica mantinha uma casa que acolhia pessoas LGBTQIAP+, vindas de vários locais da cidade, estado e até mesmo do país, em situação de violência e vulnerabilidade social, há mais de uma década, no Bairro Urlândia, exercendo um trabalho de cuidado e proteção reconhecido na cidade.
Verônica foi assassinada em 2019, vítima de transfeminicídio. Ao escolher seu nome para denominar o espaço multiprofissional, a UFSM busca reconhecer sua trajetória, homenagear sua luta e manter viva sua memória, transformando-a em política pública de acolhimento, escuta e garantia de direitos. “O nome é uma homenagem à memória e à luta dessa mulher, mas o serviço tem objetivos institucionais próprios”, destaca Bruna.
A Casa Verônica atende prioritariamente estudantes, Técnico Administrativas(os) e docentes da UFSM, com ações que também se estendem à comunidade externa por meio de projetos de extensão, formações e atividades educativas.
Aumento da procura e novas demandas
Nos últimos anos, a equipe tem observado um crescimento significativo na procura por atendimentos de pessoas trans, especialmente para acolhimento psicossocial. Se antes as demandas estavam mais concentradas em casos de violência e assédio, hoje também envolvem processos de transição de gênero, conflitos familiares e busca por apoio institucional.
“Tem aumentado bastante a procura de pessoas trans que buscam acolhimento, escuta e orientação”, afirma o TAE e assistente social Ricardo Pereira de Felippe. Entre as iniciativas recentes está o fomento à criação de um coletivo trans na UFSM, que surge a partir da demanda por maior representação e organização política dentro da universidade. As reuniões ocorrem no espaço da Casa Verônica.
Avanços institucionais e desafios
A UFSM conta com uma resolução que garante o uso do nome social desde 2015, e a Casa Verônica atua diretamente no acompanhamento de casos em que há falhas nos sistemas institucionais.
A universidade também avançou com a criação de um processo seletivo exclusivo para pessoas trans nos cursos de graduação e com políticas de ações afirmativas na pós-graduação. “A gente percebe abertura e diálogo da gestão para enfrentar essas questões”, avalia Ricardo. “Muitos problemas são estruturais, de sistemas e legislação, mas há disposição para resolver.” Outro avanço importante é a implantação de placas inclusivas em banheiros, reconhecendo o uso por pessoas cis e trans, como estratégia de enfrentamento à discriminação nos espaços cotidianos da universidade.
Arte, visibilidade e permanência
Inaugurado em janeiro de 2025, o mural da Casa Verônica transforma arte em política de permanência e memória. Criado por estudantes da UFSM selecionados por edital, o trabalho homenageia mulheres trans e travestis que marcaram e seguem marcando a história por meio da arte, do ativismo, da educação e da luta por direitos. “A ideia do mural é afirmar que essas pessoas existem, resistem e produzem conhecimento, arte e política”, resume Bruna.
Entre as figuras retratadas na exposição, ao lado de Verônica de Oliveira, está a cartunista Laerte Coutinho, artista que combina humor, crítica social e reflexão filosófica em suas obras. Ao assumir publicamente sua identidade de gênero nos anos 2010, Laerte ampliou a visibilidade trans no país, tornando-se referência tanto no campo artístico quanto no debate público sobre gênero e diversidade.
O mural também homenageia Ali Machado, professora, jornalista e ativista transfeminista formada integralmente pela UFSM. Hoje docente na FURG, Ali constrói uma trajetória acadêmica e política marcada pela defesa dos direitos humanos, pelo pensamento crítico e pela articulação entre comunicação, gênero e corporalidades.
Outra presença é de Letícia Carolina Nascimento, professora, pesquisadora e ativista reconhecida nacionalmente por sua atuação antirracista e transfeminista, residente de Piauí. Seus estudos e sua militância articulam gênero, raça e sexualidade a partir de perspectivas decoloniais, contribuindo para a construção de saberes comprometidos com a justiça social.
O mural inclui ainda Zara Bastos, estudante de Ciências Sociais da UFSM e bolsista da Casa Verônica. Além da atuação acadêmica, Zara se destaca na cena cultural de Santa Maria como DJ, representando a presença viva e contemporânea de pessoas trans nos espaços universitários e culturais.
Também é retratada Cilene Rossi, ativista e assessora parlamentar, referência local na luta por visibilidade e direitos LGBTQIAPN+. Sua atuação política e institucional tem sido fundamental para ampliar a presença de pessoas trans nos espaços de decisão e debate público na cidade.
Por fim, o mural presta homenagem a Emília (Emilya) Violet Friedrich, estudante de Artes Visuais da UFSM e inspiração primordial da obra. Sua trajetória acadêmica e artística, marcada pela sensibilidade, pela experimentação estética e pelo processo de afirmação de gênero, permanece viva na memória da comunidade universitária.
Visibilidade como compromisso permanente
Ao reunir diferentes gerações, trajetórias e campos de atuação, o mural da Casa Verônica afirma que visibilidade trans também é memória, produção de conhecimento e direito à permanência na universidade e na sociedade.
No Dia da Visibilidade Trans, a Casa Verônica reafirma que visibilidade não se resume a uma data simbólica, mas se constrói diariamente por meio de políticas públicas, acolhimento institucional e defesa intransigente da dignidade humana. “Visibilidade também é permanência, é acesso, é respeito”, conclui Ricardo.
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