Racismo institucional expõe inércia da UFSM

Maio de 2022. Era o primeiro semestre presencial na UFSM após a pandemia, depois de dois anos de ensino remoto, quando milhares de estudantes voltaram aos campi da UFSM, sob exigência da vacinação completa e do uso obrigatório de máscaras. Esperava-se que as únicas inseguranças fossem o frio na barriga, típico de recomeços, dando início a um ciclo mais otimista da organização.

Apesar de utópico, este foi o cenário durante a mobilização da comunidade antirracista da Universidade em maio de 2022, quando uma estudante do Centro de Artes e Letras usou suas redes sociais para disseminar textos racistas contra um dos seus colegas de curso. Na época, segundo o G1, a investigação foi coordenada pela Polícia Civil, paralelamente à apuração interna do CAL e a um processo disciplinar da UFSM, que resultou na suspensão da aluna por 60 dias. 

Em 2023, o caso voltou à tona com o retorno da estudante, que desta vez ingressou como aluna do curso de Filosofia, no Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH). No dia a dia da Universidade, a impunidade da jovem motivou diversas manifestações no CCSH, para a denúncia do racismo institucional na UFSM.

Apesar da implementação do Programa de Ações Afirmativas de Inclusão Racial e Social em 2007 – anterior à sanção da Lei nº 12.711, de 2012, que garante cotas sociais e étnico-raciais em processos seletivos federais –, a UFSM carrega um histórico silencioso e persistente de casos de racismo institucional. Assim como em 2022, a Universidade acumulou denúncias impunes de racismo, também entre 2017 e 2019, motivadas por pichações de teor discriminatório encontradas em diferentes Centros de Ensino.

Entre 2017 e 2019, a UFSM registrou ao menos seis denúncias de racismo, todas sem autoria oficialmente identificada. Os casos envolveram pichações com mensagens de ódio racial em espaços como os banheiros da Biblioteca Central e do Colégio Politécnico. Além disso, os Diretórios Acadêmicos dos cursos de Direito e Ciências Sociais também foram alvos, com ataques direcionados a estudantes negros(as), revelando um padrão recorrente de violência dentro da Universidade. 

Entre agosto e novembro de 2017, o Diretório Livre de Direito (DLD) e o Diretório Acadêmico de Ciências Sociais (DACS) da UFSM foram centro de manifestações racistas — incluindo desenhos de suásticas, pichações com frases como “Fora Macacos” e menções explícitas a alunas e alunos negros. As mensagens também traziam afirmações de supremacia branca como “Brancos no Topo”, o que reforça a gravidade dos ataques. 

Embora a Polícia Federal tenha iniciado investigações e periciado o material, nenhuma autoria foi oficialmente identificada. Na época, a UFSM emitiu notas de repúdio e instaurou processos administrativos, mas, segundo as testemunhas que foram consultadas, não havia informações sobre suspeitos.

Em nota enviada à ASSUFSM, a Corregedoria-Chefe da UFSM informou que casos como esse enfrentam entraves investigativos que comprometem a responsabilização dos autores. Segundo a instituição, a ausência de câmeras nos locais e a dificuldade em determinar o momento exato dos atos dificultam a apuração. O setor ainda afirma que as imagens coletadas nas áreas próximas registraram apenas movimentações habituais, sem qualquer evidência conclusiva que permita ao sistema judicial avançar com as punições aos responsáveis.

A luta Antirracista dentro do Sindicalismo

O Técnico Administrativo em Educação e Coordenador de Esporte, Cultura e Lazer da ASSUFSM, Paulo Quadrado, comenta sobre a importância e a participação do sindicato na luta contra o racismo dentro da Universidade.

“A ASSUFSM também participa desse contexto, colocando em prática aquilo que discutimos dentro da nossa categoria, que é a valorização do(a) servidor(a) técnico- administrativo(a) negro(a). E, consequentemente, ela se engaja junto com estudantes e professores(as) justamente para que as cotas sejam cada vez mais permanentes”, afirma.

Segundo ele, o Grupo de Trabalho Políticas Sociais e Antirracismo da entidade já desenvolve ações há bastante tempo, desde o período em que a ASSUFSM se transformou em seção sindical. Hoje, Paulo é um dos dois únicos coordenadores negros da entidade. Ele ressalta que essa realidade torna ainda mais urgente o compromisso com pautas antirracistas. 

“Temas como esse jamais ficarão de lado. A gente contribui da melhor maneira possível com essas discussões, junto ao DCE, e à seção sindical dos docentes. Temos uma longa bagagem do que foi a UFSM para os(as)negros(as) de antigamente e do que é agora, com os(as) atuais negros(as) que fazem parte da universidade”, conclui.

A TAE Alessandra Alfaro, mestra em Ciências Sociais, comenta que a impunidade faz parte das consequências da ausência de um ângulo antirracista nas instâncias de poder. 

“Infelizmente, a UFSM não é diferente do Judiciário. No próprio sistema judicial, são raríssimos os casos em que há condenações por crime de racismo ou mesmo por injúria racial. O Judiciário também reproduz o que a autora Cida Bento chama de Pacto da Branquitude. Como as pessoas responsáveis por julgar geralmente não vivenciam essas situações, elas têm dificuldade em reconhecer os pequenos vieses e sutilezas das violências raciais que enfrentamos no cotidiano”, afirma a TAE. 

Alessandra comenta que a exigência de provas concretas acaba resultando na impunidade de muitas denúncias na Universidade e também destaca que essa prática acaba por desestimular as denúncias à Ouvidoria.

A TAE Ângela Souza, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, o NEABI, explica que os processos envolvendo as últimas denúncias citadas têm conclusões morosas dentro da Universidade e acabam afetando diretamente a experiência universitária das vítimas e dos discentes. 

“Mesmo quando há provas, a Universidade não age com a firmeza que o tema exige. Afinal, o racismo é crime e a UFSM não possui ainda mecanismos que garantam a responsabilização dos(as) autores(as) destes atos.”

Ângela relata que o impacto vai além das vítimas diretas, afetando a vivência de aliados(as) do movimento antirracista assim como da comunidade negra da Universidade.  

“Este tempo e essa energia, mental e física, que poderíamos estar dedicando à equidade racial, passamos tratando dos processos que acabam sendo arquivados e esquecidos pela gestão da Universidade”, lamenta a TAE.

 

O IMPACTO NO CENÁRIO UNIVERSITÁRIO E ACADÊMICO

Segundo dados da Prograd (Pró-Reitoria de Graduação), a média de evasão de estudantes na UFSM entre 2010 e 2020 foi de 16,81%, o que se qualifica como uma média menor comparada aos dados nacionais. Porém, segundo um estudo desenvolvido em 2024 pelo curso de Ciências Sociais na UFSM, a tendência de desistência dentro do curso é ainda maior entre estudantes de classes mais baixas e grupos minoritários. Entre os fatores que colaboram para esses dados inclui-se a falta de sensação de pertencimento que, segundo Ângela, se deve à falta de representatividade na Universidade e ao ataque recorrente às pessoas pretas dentro do ambiente universitário.

“Ao ingressar no espaço universitário, encontramos os mesmos preconceitos que enfrentamos dentro da sociedade. Isso se manifesta, por exemplo, no impacto que certos símbolos e identidades causam: ver nossas guias, nossos cocares, nossos cabelos black, ainda gera estranhamento para quem sempre ocupou a universidade com o privilégio de se ver representado(a)”, relata a TAE.

De acordo com Ângela, a população acadêmica era composta grande parte por pessoas brancas, o que está mudando gradualmente, graças à implementação da política de cotas. Contudo, por mais que as cotas abram um pouco mais de espaço na comunidade universitária, hoje elas apenas cumprem o seu propósito mínimo de ocupação e ainda não representam a porcentagem de 56% da população brasileira que se reconhece como preta, parda e indígena segundo o Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2022. 

“Essa ausência de negros e negras continua nos espaços mais avançados também. Recentemente, entrei no Mestrado e sou a única pessoa negra na turma. Isso diz muito sobre como ainda somos sub-representados, mesmo após tantas lutas”, comenta Ângela.

Além dos fatores mais perceptíveis,  a TAE também aborda a ausência de autores(as) pretos(as) no repertório acadêmico como uma das principais lacunas que sustentam o racismo institucional. Para ela, a presença de pessoas negras e indígenas na Universidade carrega uma responsabilidade histórica.

“Muitas(os) de nós viemos de movimentos sociais e quando acessamos esses espaços, precisamos nos organizar e trazer as nossas pautas”, afirma. Dessa forma, segundo ela, uma das estratégias dessa presença é a produção de conhecimento a partir das próprias vivências. 

De acordo com dados retirados da base de dados da Plataforma Lattes/CNPq, apenas 7,4% dos docentes de pós-graduação nas ciências biológicas, exatas e da terra são negros(as), pardos ou indígenas. Além de os dados corroborarem com o relato de Ângela, a TAE Alessandra Alfaro também expõe essa problemática. 

“Era como se fôssemos animais ou extraterrestres, objetos a serem estudados. Ainda hoje, em eventos que envolvem divulgação, é comum ouvir que há poucas pessoas negras no corpo docente e discente da UFSM. Precisamos fazer parte efetiva e de autoria dentro da Universidade.”  

Alessandra descreve a sensação de entrar na Universidade antes das cotas, como adentrar “um templo branco”, onde era preciso se adaptar às normas impostas. 

“Na época, se não nos adequássemos, nós éramos excluídos da comunidade. Porém, em razão das políticas de cotas, hoje percebemos um processo de desacomodação. Estamos fazendo os(as) professores(as), técnicos(as) e colegas entenderem que existem outras epistemologias, outras formas de pesquisa, outros referenciais teóricos. Precisamos fazer esse giro epistemológico”, afirma Alessandra.

Esta desacomodação, citada por Alessandra, também é expressa por meio da literatura brasileira. Em 2024, a Folha de São Paulo organizou uma votação entre cem especialistas literários para eleger os 25 melhores livros brasileiros do século XXI. O resultado, divulgado em maio de 2025, destaca o protagonismo crescente de autores(as) negros(as), indígenas e mulheres, com obras como Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, e O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, entre as mais votadas.

Esse movimento de valorização e reconhecimento de vozes historicamente marginalizadas foi tema de um episódio do podcast Café da Manhã, da própria Folha, que ressaltou como essa nova configuração literária representa uma mudança no imaginário nacional e na forma como o Brasil entende sua própria diversidade cultural.

ESTRATÉGIAS E AÇÕES NO ENFRENTAMENTO AO RACISMO INSTITUCIONAL

Desde abril de 2025, o Grupo de Trabalho Políticas Sociais e Antirracismo da ASSUFSM ocorre toda última quarta-feira do mês. Assim como citado por Paulo Quadrado, durante os GTs são discutidas pautas importantes para a permanência de pessoas pretas dentro do ambiente acadêmico e para dar destaque à sua participação ativa na construção da Universidade, seja por meio da atuação sindical, da produção de conhecimento ou da luta por direitos dentro da instituição.

Para Alessandra Alfaro, é necessário aumentar e incentivar a participação de pessoas brancas como ouvintes nesses momentos, reconhecendo seus privilégios e compreendendo que o enfrentamento ao racismo também é uma responsabilidade de quem ocupa posições historicamente favorecidas. Segundo ela, integrar o aprendizado da Cultura Afro-Brasileira e Indígena como parte da formação crítica é uma estratégia essencial na construção de uma Universidade antirracista que, por consequência, terá o poder de transformar a sociedade. 

Além disso, a TAE também comenta sobre alternativas e soluções que poderiam ser integradas no processo de responsabilização daqueles que cometem atos de racismo dentro da universidade. Ela sugere que, em vez de apenas aplicar uma punição, a pessoa envolvida fizesse um Termo de Ajuste de Conduta, que envolvesse a participação de um curso, um ciclo formativo ou ainda a realização de um trabalho comunitário — ações que contribuíssem para uma mudança real em sua visão de mundo e também para a sua formação pessoal.

Para o Coordenador Paulo Quadrado se faz urgente e necessária a criação da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade.

“Mais uma vez, a gente entende que agora é a hora, é o momento de nós, negros(as) — tanto técnico-administrativos(as) como professores e estudantes — reivindicarmos para os(as) futuros(as) gestores(as) da UFSM a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade. Com certeza, com essa Pró-Reitoria, vai haver mais combatividade nessas ações”afirma Paulo Quadrado.

Ele também aponta fragilidades na estrutura atual do NEABI, que exerce um importante papel de controle mas que, em razão da falta de um envolvimento maior de outros Centros de Ensino e setores da Universidade, não atinge ações concretas no combate ao racismo na UFSM. Diante disso, Paulo Quadrado reforça a importância de uma instância própria e efetiva dentro da gestão universitária. 

A coordenadora do NEABI reforça que o Núcleo se compromete a assumir um papel ativo no enfrentamento ao racismo institucional, fortalecendo espaços de acolhimento e promovendo ações que tornem a universidade mais atenta e responsiva às vozes negras. 

Ângela destacou a necessidade de uma escuta qualificada e de uma Ouvidoria preparada para lidar com casos de racismo e machismo dentro da Universidade. Segundo ela, se quem atende essas demandas não estiver capacitado(a), corre o risco de reproduzir as mesmas violências que as vítimas estão denunciando. 

“Muitas vezes as pessoas pretas se deparam com pessoas brancas escutando, mas essas pessoas brancas não têm a sensibilidade necessária com a pauta”, pontua.

Ela ressalta que muitas dessas situações não são reconhecidas como crime ou sequer compreendidas como processos que adoecem — e que, em casos graves, podem levar até a tentativas de suicídio. Por isso, defende que o acolhimento dessas denúncias seja feito por uma equipe multidisciplinar, com psicólogos(as), assistentes sociais e outros(as) profissionais capacitados(as), que possam ouvir com empatia e responsabilidade as pessoas afetadas pelo racismo e outras formas de violência.

A luta por uma Universidade verdadeiramente antirracista não se limita à ocupação dos espaços, mas exige transformação estrutural. Enquanto a comunidade acadêmica segue denunciando as violências e propondo caminhos concretos, como a criação de uma Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade, o desafio maior é fazer com que essas vozes não apenas ecoem — mas sejam ouvidas e acolhidas com o compromisso que a pauta exige.

É diante desse cenário que a Universidade precisa escolher entre manter-se cúmplice de um sistema que adoece ou agir com coragem para garantir permanência, dignidade e representatividade a todas e todos que constroem o saber dentro da UFSM.

O racismo não se combate apenas com notas de repúdio. Ele se enfrenta com políticas públicas, escuta qualificada, formação crítica e ações concretas. E a hora de agir — como bem lembram as lideranças negras desta reportagem — é agora!

Texto: Júlia Ilha, com supervisão de Tainara Liesenfeld

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